por Luiz Fernando Rogério*
Mato Grosso, esse estado que respira e transpirou o sangue da terra com seus tratores, monoculturas e agroindústrias, vive um paradoxo. Como se fosse o reflexo de uma natureza que se vinga de um avanço desenfreado, as fissuras labiais e palatinas tomam conta do rosto das nossas crianças, um triste retrato de um preço pago em silêncio. E o que é pior: um silêncio que nos é imposto pela sombra do agronegócio, pela potência de uma indústria que cresce em números, mas definha em ética e saúde pública.
No estado que mais usa agrotóxicos no país, uma nova geração de bebês nasce com cicatrizes profundas. E não estou falando de cicatrizes passíveis de serem curadas com algum tipo de intervenção estética ou cirúrgica. Falo de marcas que vão além da pele e entram na essência do ser, afetando o desenvolvimento de uma criança que, em seus primeiros anos, já carrega o peso de um modelo de desenvolvimento insustentável. Esses recém-nascidos, que ao abrir a boca revelam uma fissura, podem muito bem ser os filhos da negligência política, do descaso com a saúde da população e da falta de sensibilidade que parece assolar aqueles que deveriam proteger os mais frágeis.
Os dados do estudo sobre malformações congênitas no estado de Mato Grosso são claros: quanto mais agrotóxico, mais fissura. E mais que isso, não é algo que ocorre de maneira aleatória. As taxas de fissura labial e palatina mostram uma alta autocorrelação espacial, ou seja, o veneno não se espalha como o vento, ele se concentra nas mesmas áreas, nas mesmas regiões, onde o uso do pesticida é elevado. Um mapa das dores ocultas no campo.
Aquele agricultor que acorda cedo para pulverizar a lavoura, que respira o veneno como se fosse o ar da sua sobrevivência, não imagina que suas próprias sementes estão se tornando um veneno para o futuro das gerações. E os moradores das cidades vizinhas, que nem sequer fazem ideia do que se passa nos campos ao redor, são os que sofrem as consequências. A terra pode parecer imperturbável, mas o homem e seus filhos, esses, sofrem as consequências daquilo que foi lançado sobre ela.
O impacto é duplo. Primeiro, nas malformações visíveis, aquelas que estão à vista de todos. Depois, nas invisíveis: o câncer, as doenças respiratórias, as intoxicações. O impacto vai se estendendo, gerando uma espiral de sofrimento, que parece ser parte de um ciclo que se repete, mas que jamais deveria ter começado.
É uma vergonha o que está acontecendo em Mato Grosso. Mas não é uma vergonha que nasce apenas no campo, nas lavouras de soja ou milho. Ela começa nas decisões políticas. A redução da distância mínima para a pulverização de agrotóxicos em áreas próximas a comunidades, por exemplo, é uma decisão que parece no mínimo irresponsável, como se a vida humana fosse uma variável menor na equação do lucro. A aprovação do Projeto de Lei nº 1.833/2023, que visa reduzir as distâncias de segurança para a aplicação de agrotóxicos em grandes propriedades, coloca em risco a saúde dos que vivem à margem dessa indústria de veneno.
A conclusão de estudos como este não poderia ser mais direta: o uso de pesticidas é um fator de risco significativo para o aumento de malformações congênitas, especialmente as fissuras labiais e palatinas. E é claro, não podemos deixar de notar o outro lado dessa equação: as populações com menor renda e escolaridade, que são as mais expostas aos venenos, também são as mais vulneráveis a essa tragédia de proporções sociais e econômicas.
A questão não é se o veneno vai ou não continuar. Ele já está presente, na comida, no ar, nas nossas vidas. O que precisa mudar é a forma como encaramos os danos que ele causa, não apenas em nosso corpo, mas em nossa ética coletiva. O estado de Mato Grosso precisa mais do que nunca de uma revolução, não apenas na maneira de se produzir, mas na maneira de se respeitar a vida.
Que tal começarmos a fazer o dever de casa? Que tal parar de olhar para as crianças com fissura labial e palatina como uma estatística distante e começarmos a ver seus rostos como um alerta que não pode mais ser ignorado? O veneno já entrou nas nossas vidas. Agora, só podemos lutar para que ele saia.
*Luiz Fernando Rogério - Especialista em Sistemas e Serviços de Saúde
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